Ano passado assisti as cinco temporadas de “A sete palmos”. A série conta a história da família Fisher, que além de lidar com seus conflitos pessoais precisa administrar seu negócio, uma funerária. Vi tantos episódios seguidos que estraguei meu DVD. Sendo assim, logo que soube que a HBO vai lançar em setembro um novo seriado do Alan Ball, o diretor e idealizador de “A sete palmos”, e também roteirista do filme “Beleza americana”, corri para a internet a procura de novidades.
“True Blood” é sobre vampiros. As criaturas da noite passam a conviver normalmente com os humanos quando cientistas japoneses desenvolvem uma espécie de sangue sintético, o “True Blood” que dá título à série, e que pode ser encontrado em qualquer bar de beira de estrada. Agora que os vampiros “saíram do caixão”, terão que se adaptar à vida em sociedade e conviver com o preconceito dos humanos. A trama se desenvolve primordialmente a partir da história de Sookie (Ana Paquin, a Vampira do X-men), uma garçonete que sente empatia por vampiros. Detalhe: ela é telepata. A idéia é no mínimo instigante, mas os personagens deixam a desejar, pelo menos no piloto que vazou na internet.
Logo que me contaram sobre o enredo da série me espantei um pouco com a aposta na fantasia. Depois pensei e percebi que temas como morte, preconceito e comportamento social estavam na raiz de “A sete palmos”, e podem ser muito bem explorados a partir do argumento de “True Blood”. No entanto, os personagens da série anterior eram intrincados e profundos. Os membros da família Fisher possuíam características marcantes, mas de forma alguma eram rasos. Até mesmo a caçula Claire, que poderia facilmente cair no estereotipo da adolescente revoltada, acabava sempre mostrando seu lado idealista. Já na nova série a índole da maioria dos personagens fica explícita de cara. Sookie é boa, do tipo inocente e corajosa ao mesmo tempo. O dono do bar em que trabalha e que é apaixonado por ela , Sam, é o looser-fofo. Sua amiga Tara é irônica e esquentadinha, mas no fundo é super romântica. Personagens que já vimos várias vezes. O único que me despertou alguma curiosidade foi o irmão de Sookie, Jason. Nos fóruns da internet muita gente criticou a história dele, que passa uma noite com uma mulher de caráter duvidoso e que uma vez transou com um vampiro. Só que ele foi um dos poucos que não me pareceram óbvios. Um cara aparentemente bom e carismático, que gosta da família, mas que é também galinha e um pouco pervertido, e acaba se enrolando por causa disso. O vampiro Bill, por quem Sookie sente uma forte atração, também tem alguma ambigüidade, apesar do jeito sensual, um clichê se tratando de vampiros.
Os personagens que aparecem nas primeiras cenas do piloto não são do núcleo principal da série, um formato bem parecido com “A sete palmos”, que começava sempre com uma morte em situações ora trágicas ora cheias de humor negro. Aqui até funciona, mas já não é tão original. Fora isso, Ball parece ainda estar descobrindo como lidar com o tipo de ação que uma série fantástica requer. As cenas em que um casal de bandidos tenta roubar o sangue de Bill para vender no mercado negro são fracas. A idéia é legal, cheia de crítica e ironia, mas na prática não tem o clima necessário para envolver o espectador e Sookie lutando com uma corrente beira o patético. Para piorar, o casal é formado por um sujeito malvadão e sacana e uma a mulher biscate e nervosinha.
Gostei de alguns detalhes e piadinhas inteligentes. O programa de televisão que aparece no começo do episódio e mostra o debate entre dois políticos, um humano e uma vampira, é bem bacana. Curti o clima “sensorial”das cenas entre Sookie e Bill, e fiquei curiosa para saber o que realmente houve com Jason. Esperava mais da série, certamente não será uma obra-prima. Ainda assim, darei mais chances a “True Blood”. Mesmo porque ela só estréia nos EUA dia 7 de setembro e esse piloto jogado na internet tem até algumas cenas faltando (O que me lembrou Death Proof do Tarantino).