
Nas primeiras aulas do curso de jornalismo aprendemos que a informação vem em primeiro lugar. O assunto que gera interesse do público deve ser tratado com cuidado e respeito. A criatividade no jornalismo deve ser subordinada à clareza na transmissão da notícia. Isso não significa que não há espaço para a inovação, mas que antes de mais nada assumimos o papel de comunicadores sociais, como diz o nome do curso.
Sempre achei o telejornalismo diário sério demais. Os repórteres e apresentadores com as vozes empostadas e os cabelos milimetricamente penteado. Óbvio que alguém totalmente descabelado acaba chamando mais atenção para sua aparência desleixada do que para o que diz, mas o excesso de formalidade me remete à velha e irreal noção de imparcialidade. Esse assunto que será para todo o sempre debatido nos bancos universitários, e que de certa forma eu o trago para cá. (Deixem-me ser clichê, ok?).
Até que ponto o jornalista é alguém com uma visão de mundo que perpassam a maneira como ele trata uma notícia, e quando ele ultrapassa sua função e começa a fazer parte daquela notícia. A aparecer junto, e às vezes até mais, do que o tema tratado. Esses questionamentos sempre me vêm à cabeça quando assisto ao “Profissão repórter” da TV Globo. O programa tem a clara intenção de mostrar os bastidores e as dificuldades enfrentadas pela equipe de jovens jornalistas comandada por Caco Barcellos.
A primeira edição fora do Fantástico acompanhava a rotina de motoboys. A abordagem era simples e interessante: seguir na garupa das motos em meio ao trânsito caótico. Só que em todo momento os repórteres apareciam fazendo seu trabalho. Em alguns casos até trazia informação, como o medo do repórter na garupa de uma moto, que demonstra que há risco naquelas manobras. Ao mesmo tempo, piadinhas sempre ressaltavam o empenho dos repórteres em conseguir as imagens e entrevistas a que assistíamos. A valorização da maneira como foi feito o programa. Na edição de ontem, sobre nascimentos, a repórter e o cinegrafista que acompanharam uma parteira no Pará apareceram atravessando o Rio junto com a senhora para chegar à casa de uma gestante. Como entretenimento funciona, é engraçado ver a moça bonitinha, arrumada, segurando um microfone, e tendo que atravessar a correnteza. Os detalhes de produção podem ser relevantes para os coleguinhas, mas realçar isso ao olhos do espectador me parece uma inversão dos valores do jornalismo. Leve, mas presente.
Gosto do programa, que tem boas pautas e ótimos personagens, mas essa glamourização do repórter me incomoda um pouco. Talvez eu seja conservadora nesse ponto.
Esse texto na verdade é mais um questionamento do que uma conclusão. Seria legal ouvir outras opiniões.